29 de setembro de 2026

Zé Vágner: arquitetura que nasce do lugar

José Vágner é arquiteto formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Desde 2022, está à frente do Estúdio Zé, desenvolvendo projetos de Arquitetura em diferentes regiões do Brasil. 

Em 2026, seu trabalho ganhou projeção internacional ao receber o prêmio Building of the Year – ArchDaily, na categoria Casas. No mesmo período, foi reconhecido pelo IAB Pernambuco como Obra do Ano Edificações, consolidando sua atuação como uma das vozes contemporâneas da arquitetura brasileira.

Sua prática une técnica, identidade regional e performance ambiental, com foco em soluções que valorizam o território, o clima e as pessoas.

  1. Como foi transformar a casa onde você cresceu em um projeto reconhecido internacionalmente?

O projeto que me colocou para o mundo, que me deu visibilidade como profissional e que, de certa forma, mudou a minha realidade, foi justamente a casa onde eu cresci, a casa da minha mãe. E eu acho isso muito bonito. Entre tantos projetos que eu poderia ter feito, foi justamente esse que ganhou essa dimensão toda. 

  1. O que você acredita que torna a arquitetura regional tão potente?

Eu acho que a potência da arquitetura regional está justamente na capacidade que ela tem de dialogar com o lugar onde ela nasce. Pra mim, a força dela está nisso: quando você consegue transformar as características de um lugar em arquitetura. É um objeto novo, construído, mas que conversa bem com o espaço onde está inserido e reflete a cultura, a identidade e a história daquele lugar.

  1. A simplicidade pode ser sofisticada?

Eu acredito que sim. O simples é de fácil leitura e, por isso, gera empatia. E eu acho isso sofisticado. Pra mim, existe muita sofisticação em criar ambientes simples, com materiais comuns, mas que são bem resolvidos e funcionam bem para as pessoas. Essa simplicidade bem pensada também é uma forma de sofisticação.

  1. O que você quis preservar emocionalmente na Casa de Mainha?

Eu quis preservar a história de uma vida. A casa foi construída pelos meus pais na década de 1980. Foi a casa que abrigou a mim e aos meus irmãos. Foi a única casa que eles construíram, feita com as próprias mãos, usando a técnica do tijolo de adobe. A gente preservou muito dessa casa. Não foi possível deixar os tijolos aparentes, como eu gostaria, mas a casa continua lá. Ela só ganhou uma roupa nova. Uma roupa que melhora a qualidade de vida de quem vive nela. Mas a história continua ali. E era justamente isso que eu queria preservar: a história que aquelas paredes carregam.

  1. Como a inteligência climática pode transformar a forma como construímos no Brasil?

Eu acredito que, quando um projeto leva em consideração todas as variáveis do lugar, inclusive as questões climáticas, ele responde muito melhor às necessidades das pessoas. O espaço fica mais confortável, mais eficiente, consome menos energia e oferece mais qualidade de vida. Então eu acho que a arquitetura precisa responder às questões climáticas. O planeta precisa disso e nós, como humanidade, também precisamos disso. 

  1. O que significa vencer um prêmio como o Building of the Year sem abrir mão das suas raízes?

Pra mim, é uma grande satisfação. Eu nunca fiz arquitetura pensando em ganhar prêmio. Eu sempre defendi a ideia de que arquitetura é qualidade de vida e que ela não deveria ser algo exclusivo de quem tem dinheiro. E eu acho que esse prêmio também comunica um pouco disso. E eu sinto que não ganhei sozinho. Muita gente queria ver uma casa simples, uma casa do interior, uma casa de mãe em evidência. E foi isso que a gente conseguiu mostrar para o mundo. 

  1. Se pudesse definir sua arquitetura em três palavras, quais seriam? 

Adaptada, integrada e contemporânea.

  1. Qual foi o maior aprendizado que a Casa de Mainha te trouxe? 

Eu acho que o maior aprendizado foi entender que vale a pena acreditar em si mesmo e defender aquilo em que se acredita. Mas também foi entender que eu estou no mundo como alguém que aprende. Eu me coloquei muito nesse lugar de escutar, de observar, de entender o espaço e aprender com ele. Então, pra mim, a Casa de Mainha foi uma grande escola.

  1. O que a arquitetura nordestina tem a ensinar para o mundo? 

Eu acho que a arquitetura nordestina tem muito a ensinar sobre como se relacionar com o meio. A gente vive em uma região de calor intenso. De forma geral, a gente aprendeu a construir em diálogo com essas condições. Pra mim, a arquitetura nordestina mostra justamente que inteligência, sensibilidade e adaptação ao lugar também são formas de conhecimento. 

  1. O que a arquitetura brasileira ainda precisa valorizar mais?

Eu acho que a arquitetura brasileira precisa olhar para fora, mas não pode, de maneira nenhuma, esquecer a potência que existe aqui dentro. Muitas vezes a gente procura referências em outros lugares sem perceber a riqueza que existe no nosso próprio território. Então eu acho que falta um pouco mais desse olhar para dentro. Valorizar aquilo que já temos e aquilo que já sabemos fazer. 

  1. O que faz uma arquitetura ser realmente conectada ao lugar onde ela nasce?

Eu acho que uma arquitetura se conecta ao lugar quando ela consegue olhar para todas as variáveis que existem ali. O clima, a cultura, os hábitos das pessoas, as necessidades de quem vai usar aquele espaço. Quando a arquitetura consegue responder bem a essas condicionantes, ela se conecta naturalmente ao lugar. 

  1. Depois de todo o reconhecimento internacional, o que continua movendo você como arquiteto?

O que continua me movendo é saber que eu posso ser uma voz para outras formas de fazer arquitetura. Eu gosto da ideia de ajudar a desmistificar esse lugar da arquitetura como algo distante das pessoas. Mostrar que arquitetura também pode ser simples, acessível e próxima da vida real. E, de alguma forma, eu sinto que essa mensagem tem encontrado espaço e tem funcionado. 

Assine nossa newsletter

Receba o conteúdo mais recente da sala direto no seu e-mail

Post recentes

14 de outubro de 2026

O que a arquitetura faz pela sua empresa?

por Gabriela Meletti Durante muito tempo, a arquitetura corporativa foi vista apenas como operacional: organizar setores, acomodar equipes e garantir que a...

9 de julho de 2026

Ambientes corporativos mais humanos: o comportamento, acústica e flexibilidade transformam os espaços de trabalho

Os ambientes corporativos estão em constante transformação. As mudanças no comportamento das pessoas e nas dinâmicas de trabalho têm levado empresas e...

8 de julho de 2026

O comportamento das edificações após incêndios: riscos, diagnóstico e recuperação

O incêndio que atingiu uma igreja centenária em Flores da Cunha reacendeu uma discussão importante sobre o comportamento das edificações após a...

4 de maio de 2026

Neuroarquitetura em escolas: o ambiente também ensina

Por Gabriela Esteves Lampert, arquiteta e presidente da Associação Sala de Arquitetos A maneira como os espaços são projetados tem uma influência...

1 de abril de 2026

Vozes da Arquitetura estreia com sucesso e reúne profissionais em Caxias do Sul

Com mais de 400 participantes, o evento de arquitetura movimentou a Serra Gaúcha com palestras, conexões e debates sobre o setor. A...

17 de julho de 2025

Vitrine Arquitetônica: Conheça Eduardo Dalsoglioda da Caderode

É com grande entusiasmo que lançamos a primeira edição da Vitrine Arquitetônica no blog da Sala de Arquitetos! Neste espaço exclusivo, destacamos...