O incêndio que atingiu uma igreja centenária em Flores da Cunha reacendeu uma discussão importante sobre o comportamento das edificações após a ação do fogo. Em situações como essa, uma das perguntas mais frequentes é se o imóvel pode ser recuperado ou se os danos provocados pelas chamas tornam inevitável sua demolição.
Segundo o engenheiro civil Bernardo Tutikian, a resposta não é tão simples. Um dos equívocos mais comuns é acreditar que toda construção atingida pelo fogo está automaticamente condenada. Na prática, seu comportamento depende de diversos fatores, como a temperatura alcançada durante o incêndio, o tempo de exposição ao calor e os materiais empregados.
Para compreender esse cenário, é importante diferenciar dois conceitos fundamentais da engenharia de incêndios: resistência ao fogo e reação ao fogo. A resistência ao fogo está relacionada à capacidade da edificação suportar altas temperaturas sem perder estabilidade ou entrar em colapso. Já a reação ao fogo diz respeito ao comportamento dos materiais de acabamento e revestimento diante das chamas, incluindo a propagação do incêndio e a emissão de fumaça.
O caso da Boate Kiss é um exemplo didático dessa diferença. Embora tenha sido uma das maiores tragédias da história do país, o principal problema não esteve relacionado ao colapso da construção, mas à queima de materiais que liberaram gases tóxicos e favoreceram a rápida propagação da fumaça. Ou seja, tratava-se de uma questão ligada à reação ao fogo, e não à resistência do local.
Cada material responde de forma diferente às altas temperaturas. O aço, por exemplo, apresenta baixa resistência ao fogo quando não recebe proteção adequada. À medida que sua temperatura aumenta, sua capacidade resistente diminui rapidamente, podendo provocar deformações e até colapso. Por isso, sistemas de proteção passiva, como revestimentos específicos e pinturas intumescentes, são amplamente utilizados. Já o concreto armado costuma apresentar bom desempenho diante do fogo. Além de possuir resistência térmica elevada, ele atua como isolante natural, protegendo as armaduras de aço em seu interior. A madeira também costuma surpreender. Durante a queima, forma-se uma camada carbonizada na superfície da peça que reduz a transferência de calor para as camadas internas. Apesar dessa característica favorável, continua sendo um material combustível, capaz de contribuir para a propagação e duração dos incêndios.
Mais importante do que identificar os materiais atingidos é compreender a intensidade do ocorrido. Na avaliação pós-incêndio, as perguntas centrais são: qual temperatura foi alcançada e por quanto tempo a construção permaneceu exposta ao calor?
Isso porque o calor provoca transformações físico-químicas que nem sempre são perceptíveis a olho nu. Uma edificação aparentemente intacta não deve ser considerada automaticamente segura, assim como danos visíveis não significam, necessariamente, perda irreversível de desempenho.
É nesse contexto que a engenharia diagnóstica assume papel fundamental. O processo começa pela reconstrução do sinistro, reunindo informações sobre a duração do incêndio, materiais envolvidos, relatos de bombeiros, testemunhas e demais evidências encontradas no local. A partir desses dados, é possível compreender a severidade da ocorrência.
Em situações mais complexas, amostras dos elementos atingidos podem ser encaminhadas para análises laboratoriais. Como as altas temperaturas alteram a composição dos materiais, esses ensaios ajudam a identificar os efeitos provocados pelo incêndio e a estimar eventuais perdas de resistência. Com base nesse diagnóstico, é possível definir se o imóvel pode continuar em uso, se precisa de reforços ou de recuperação.
Um erro relativamente comum após incêndios é assumir que uma edificação está segura apenas porque permaneceu de pé. A ausência de colapso não significa que não houve comprometimento de desempenho. Em muitos casos, somente uma avaliação especializada consegue identificar os impactos reais causados pelo calor.
A decisão entre recuperar ou demolir passa, inicialmente, por critérios técnicos. Depois dessa etapa, entram em cena aspectos econômicos, como custos de recuperação, reforços necessários e viabilidade financeira.
“O futuro de uma construção atingida pelo fogo não é definido pela aparência dos danos, mas pela capacidade de compreender tecnicamente o que aconteceu com seus materiais. É justamente nesse ponto que a engenharia diagnóstica desempenha seu papel mais importante: transformar evidências em informações confiáveis para orientar decisões com segurança”, finalizou Tutikian.